domingo, 11 de maio de 2008

Blind Wolf


Era uma noite chuvosa, minhas roupas estavam encharcadas e a garrafa de whisky já pela metade, meu mundo girava e nada podia me acalmar, eu estava sozinho.

O que eu havia fumado antes me deu fome, por sorte encontrei um bar aberto, nunca me imaginei em um ambiente como aquele, paguei caro por um pastel que deve ter sido fritado há semanas atrás, eram as últimas moedas do salário que recebi ontem.

A primeira mordida daquele pastel putrefato pareceu-me o néctar dos deuses, por um momento lembrei do sabor dos lábios dela e tudo volta a minha mente, perdido em um devaneio sento no meio-fio, levava uma segunda mordida do pastel à boca quando vejo aquele cachorro preto na minha frente, ele olhava para o pastel com olhos famintos e suas costelas pareciam estar rasgando o seu couro.

Dei um pedaço do pastel a ele, comeu rápido, engoliu sem mastigar, então o mandei ir embora, ele me encarou triste e se aproximou cabisbaixo.

Dei mais um pedaço do pastel a ele e comecei a contar a minha história, era um ótimo ouvinte, e o melhor é que ele não tentava me dar conselhos, apenas me fazia companhia.

Acabei dando todo o resto do pastel ao cachorro, mas ele continuou ao meu lado, ficamos ali sentados, cada um com os seus problemas, por mais estúpido que possa parecer, se não fosse aquele cachorro provavelmente eu teria me matado aquela noite.

Por fim tomei coragem e joguei fora o resto do whisky, me levantei devagar, olhei para o relógio, se eu corresse ainda conseguiria tomar banho e chegar a tempo no serviço, minha vida precisava continuar.

Como se entendesse que eu estava indo embora o cachorro preto também se levantou, ele foi caminhando devagar até o meio da rua, quando ele percebeu o carro já era tarde demais, vi o cachorro ser atropelado na minha frente, a roda do carro passou sobre sua cabeça, não sobrou muito dela.

Se eu soubesse que o cachorro morreria tão cedo, não teria dado tanto pastel a ele.

“Não demorou muito para eu descobrir,
O que as pessoas querem dizer com minha destruição.
Gastou meu dinheiro, levou meu carro, começou a
Falar para os seus amigos que ela seria uma estrela.
Eu não sei mas me contaram,
Uma mulher de pernas grandes não tem alma.

Tudo que peço quando eu rezo é que
Uma mulher equilibrada entre em meu caminho.
Preciso de uma mulher para segurar minha mão,
Não me conte mentiras, me faça um homem feliz.”

Tradução de Black Dog –Led Zeppelin

2 comentários:

  1. Ana Sancho4:29 PM

    Obrigada pela ligação ontem!
    Foi uma boa surpresa! =)

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  2. Li esse conto uma única vez, quando foi publicado aqui no Oráculo... Quase três anos depois, recordo-me dele em uma madrugada fria, escura, mais uma madrugada perdida pelas estradas...
    Sabe, depois de tanto tempo, apenas posso dizer uma coisa: vc sabe escrever. Caso contrário, pq uma coisa assim permaneceria guardada na cabeça de uma pessoa como eu por tanto tempo?

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